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Bolso do Juca

Mesmo aumento, mesmo dia: por que um juntou R$ 40 mil e o outro parcelou a fatura

Publicado em · Bolso do Juca

O jeito de um aumento de salário não sumir é decidir o destino dele antes de o dinheiro chegar. Na história do vídeo, Thiago e Rafael recebem o mesmo aumento de 40% no mesmo dia. O Thiago agenda uma transferência automática de R$ 1.200 por mês para uma conta separada, sempre no dia seguinte ao pagamento, e fica com R$ 200 para gastar como quiser. Em três anos, só essas transferências somam R$ 40 mil. O Rafael deixa a vida subir junto com o salário e, no mês 28, parcela a fatura do cartão pela primeira vez.

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Como um aumento de 40% some em cinco meses?

O Thiago tem 27 anos e é analista de suprimentos numa distribuidora em Sorocaba, no interior de São Paulo. Mora numa kitnet de R$ 1.100 e vai de bicicleta para o trabalho. Depois de três anos ganhando R$ 4.500 brutos, é promovido a coordenador de turno, com salário de R$ 6.300. Descontados INSS e imposto, entram, arredondando, R$ 1.400 a mais por mês. O Rafael, colega de setor, recebe a mesma promoção no mesmo dia.

O Rafael não faz nenhuma loucura. No mês 1, comemora com os amigos e gasta R$ 400. No mês 2, compra um celular novo em 12 parcelas de R$ 350. No mês 3, muda para um apartamento de dois quartos que custa R$ 800 a mais. No mês 4, aparecem streamings, carro de aplicativo e delivery, uns R$ 250 que ninguém sente. Somando parcela, apartamento e pequenos confortos, dá R$ 1.400. O aumento inteiro foi absorvido, uma decisão razoável de cada vez. No mês seis, ele ganha 40% a mais e sobra o mesmo que sobrava antes.

Por que a gente deixa o padrão de vida subir junto?

O vídeo dá nome a isso: adaptação hedônica. Em 1978, os pesquisadores Philip Brickman, Dan Coates e Ronnie Janoff-Bulman entrevistaram 22 ganhadores de grandes prêmios de loteria e compararam com pessoas que não tinham ganhado nada. Os ganhadores não estavam mais felizes e sentiam menos prazer nas coisas pequenas do dia a dia. O que é novo vira normal, mas a conta continua chegando.

E o Rafael não é exceção. Segundo a Peic, da Confederação Nacional do Comércio, 81,7% das famílias brasileiras tinham alguma dívida a vencer em setembro de 2026. Em julho de 2026, pelo cálculo do Banco Central, 28,7% da renda das famílias já saía todo mês para pagar dívidas com bancos e financeiras.

Para que serviu o dinheiro que ninguém via?

No mês 7, os amigos fecham uma viagem parcelada em seis vezes. O Thiago quase entra no parcelamento, mas lembra que os R$ 200 dele estavam guardados havia três meses. Vai e paga à vista. O teste mais difícil veio no mês 19: o pai, de 58 anos, perde o emprego depois de 14 anos na mesma empresa, com a prestação da casa vencendo todo dia 10. O Thiago cobre R$ 800 por mês durante quatro meses e reduz a transferência de R$ 1.200 para R$ 400. Ninguém pega empréstimo e ninguém atrasa nada.

No mês 26, a reserva já cobria seis meses do custo de vida dele. No mês 34, ele recusou uma proposta de emprego em São Paulo porque podia escolher com calma. Quem tem reserva escolhe emprego. Quem não tem aceita o primeiro.

O que dá para copiar da história do Thiago?

A primeira decisão foi automatizar a transferência para o dia seguinte ao pagamento, e não para o fim do mês, se sobrar. Foram dois minutos no aplicativo do banco, uma vez só. A ideia tem respaldo: em 2004, os economistas Richard Thaler e Shlomo Benartzi publicaram no Journal of Political Economy o programa Save More Tomorrow, em que funcionários se comprometiam a mandar parte dos próximos aumentos para a poupança de aposentadoria. Na primeira empresa que testou, 78% dos convidados aderiram, e a taxa média de poupança de quem participou foi de 3,5% para 13,6% do salário em 40 meses.

A segunda foi não guardar tudo. A fatia de R$ 200 é o que fez o plano durar três anos. A terceira foi dar nome e lugar ao dinheiro: primeiro a reserva de emergência, depois o longo prazo.

O Thiago também perdeu coisas. Não teve o apartamento com varanda nem o carro, e passou um tempo com fama de quem não aproveita a vida. Não ficou rico, e nunca foi esse o ponto. O que ele entendeu no mês 19 é que aquele dinheiro servia para não precisar pedir, e para poder ajudar sem afundar junto. Este conteúdo não é recomendação financeira.

Perguntas frequentes

O Thiago e o Rafael existem?

Não. É uma história ilustrativa. Os personagens são inventados, mas os dados que aparecem em volta deles são reais e têm fonte no vídeo.

Como o Thiago chegou a R$ 40 mil?

Foram 32 meses de transferência automática de R$ 1.200 e 4 meses de R$ 400, no período em que ele ajudou o pai. A conta não inclui as metades do décimo terceiro nem o rendimento.

Por que não guardar o aumento inteiro?

Quem tenta guardar tudo costuma desistir no primeiro aperto. O Thiago deixou R$ 200 por mês para viver, e foi esse dinheiro que pagou a viagem, a bicicleta e alguns jantares sem parcela.

O que é adaptação hedônica?

É o nome do processo em que o novo vira normal. O apartamento com varanda é incrível no primeiro mês e, no décimo, é só onde você mora, mas o aluguel continua sendo cobrado como se fosse incrível.

Onde o Thiago deixou a reserva de emergência?

Em algo com liquidez diária e baixo risco, como o Tesouro Selic. Depois que a reserva cobriu uns seis meses de custo de vida, o restante ganhou objetivo de longo prazo. Não é recomendação financeira.

Por onde começar

Abra o aplicativo do seu banco e escolha um número: pode ser metade do próximo aumento, pode ser um terço. Se o aumento já veio este ano, agende hoje uma transferência mensal de uma parte dele para uma conta separada. Para acompanhar para onde vai o dinheiro do mês, o App do Juca serve para registrar os gastos e acompanhar as suas metas. Um papel ou o bloco de notas do celular também resolvem. O que importa é o dinheiro ter destino antes de a vida se acostumar com ele.